# 37

CHICO BUARQUE: Safo, (sa)Fado Tropical, o poeta-fingidor no primeiro de abril, a literatura como arte da vilania e o mundo em queda livre dos velhos e dos mortos

 

– Por que choras, meu filho? Por que(m) choras?

– Pela terra, Mãe. Pela Terra.

– Explica.

– Mãe. É que ouvi essa música. Desse homem. Como se chama? “Chico Buarque”, deve ser. É o que diz aqui a internet. Ou talvez seja um anjo. Ou talvez seja uma parceria (embora o nome dos parce’ros raramente apareça nesse mundo das estrelas…). A música fala da ESPERA. Mas não de uma espera minha, sua, individual (a espera dos românticos, por meia vida, ou por uma), mas uma espera que transcende a vida, a espera milenar, dos grandes encontros, dos encontros entre massas de pessoas, continentes, as grandes esperas, Mãe, grandes…

– E?

– E daí que, claro, não é que eu tenha chorado, mas algo chorou através de mim, como quando se chora copiosamente ao acordar, sem motivo, sem nem o dia ter começado, quando o próprio chôro te acorda como se fôsse um oceano que te afoga e assusta, algo imenso, nad’a ver com o choro de um indivíduo… algo chorou, hein?, uma grande espera, uma grande derrota talvez, imensa, choro de garganta, desassistido, daquele que incha a garganta superior, e choro de napa, daquele que entope as vias nasais, e que te faz demorar a entender o dia.

– E depois?

– Depois, eu fui levado num grande barco, pra não sei onde, havia um barco que acalentava, levava, na mão esquerda do piano; as estrelas, muito pequeninas e belinhas, lá no alto, como a filha, na mão direita; mas isto, o mar e as estrelas, era(m) apenas moldura pra região média da escuta, moldura pras vozes das sereias e das crianças que se despediam nos portos; nesse tempo longínquo havia despedida, Mãe, havia crianças que se despediam nos portos, de ponta de pé, tentando alcançar o barco que já se ia, mas não alcançavam, porque o tamanho não permite, o tamanho do corpo esticado das crianças, o barco só alcança quem nada, mas é impossível nadar em alto-mar, um oceano, é impossível, Mãe, de modo que as crianças ficavam e os barcos iam…

– Então?

– As crianças viviam, separadas dos barcos. Fingindo. E os barcos fingiam levar as pessoas ao paraíso.

– Onde?

– Isto era Portugal talvez, mas também era árabe e judeu, era Sul das Oropa mas também Norte da África, e também era uma terra tropical, uma terra cheia de mangas, transplantadas de outras terras verdes de mangas, uma coisa muito estranha, um acordo muito soturno, Mãe: sonho!

– …

– Havia ainda um torturador, mas um torturador arrependido, na verdade um torturador era apenas o símbolo de outr’algo, te digo: ele simbolizava grandes movimentos da Terra, como se fosse a união e separação entre continentes e genealogias inte’ras, o movimento mesmo das placas tectônicas (deve ser assim que se chamam), mas também simbolizava a cisão interna, Mãe, a grande cisão interna, quand’o peito se abre com’uma placa tectônica de onde saem pus e lava, dessas coisas horrorosas que existiam no Romantismo, os grandes arrependimentos, os grandes amores eternamente impossíveis, as grandes e imensas saudades, a saudade de uma terra natal que já não existe, ou que só tenha existido em nossas cabeças, como se as infâncias fossem coletivamente inventadas, como se as mães fossem inventadas, como se as origens e as tradições e os pertencimentos e as famílias fossem criativa e gloriosamente inventadas, nada que a gente tenha vivido, Mãe, mas dá pra imaginar, e acordar chorando…

– E depois?

– Depois, o barco procedeu ao infinito, rumo ao forever, acalentando, como se a Terra fosse redonda e navegar em linha reta nos levasse ao ponto de partida, como se fosse o começo de um novo ano: sol em Áries e aniversário. “Águas de Março fechando o verão”. Isto aconteceu, Mãe. Mas foi só em Música. Estava lá uma pequena menina de testemunha. Uma menina de cabelos arábicos negríssimos e encaracolados (ou talvez sejam anelados, ou apenas ondulados, ou talvez sejam só marola, ondinha). Ela também algum dia num distante passado de outros tempos se havia despedido d’um glorioso barco imperial, corpo esticado, ela viu, Mãe, e eu também vi… ela canta, ou um dia vai cantar, com’uma cantora de música erudita persa (ou talvez vá cantar através de um violoncelo), mas vai cantar o imenso sofrimento que nem viveu, isso sim; tem essa palavra aqui ó: “LONGING”, é isso, uma grande e imensa espera, não é como esperar o médico que sempre atrasa, mas esperar uma híper- ultra- dobra no rumo da vida, um grande acontecimento, o murmúrio de uma placa tectônica… .. . Sabe do que eu ‘tô falando?

Ouve.

***

P.s.:

O poeta é um grande fingidor. Imitador.

É por isso que qualquer projeto moral aplicado à Arte termina pela expulsão, censura, ostracismo ou morte do poeta. Porque o poeta não é necessariamente moral. E (su)a arte não é necessariamente moral.

Na “República” de Platão, isto já estava lá. Leiam. Platão queria uma música “educativa”, que representasse o “nobre” e o “honrado”, o que incluía evitar representar os modos da Mulher, do escravo ou fenômenos da natureza (trovão, marola, bichinho…). O amor de Platão era o amor pelo Homem. Entre dois Homens. Ou entre um Homem e um jovem (adolescente? criança?). Do mestre pelo discípulo. Eram os valores da época. Lembrem-se.

Mas, Chico Buarque não parece ter propriamente um projeto moral retilíneo: uma hora é mãe, outra hora é malandro federal, outra hora é puta, cafetão, macho cis hetéro-branco no poder (sic) e outra vez é peito aberto de torturador. Quer dizer, os personagens que ele retrata são isso. São os personagens, mas ele vira e mexe escreve na 1a pessoa da singularidade. Como Safo, poetisa grega antiga, dizem, foi a primeira a fazer. E sempre deu confusão, porque alguns leitores desavisados acham que é a própria autora que está ali, cometendo os crimes, não um personagem qualquer retratado. Se bobear, mandam prender o autor pelos crimes do personagem…

Como faz, então? Chico vai sobreviver a esta reedição atual de Platonismo pras Artes? Digo, um Platonismo com os valores de agora, ou seja, que queira por ex. evitar os personagens que não honrem inte’ramente a Mulher. Que proíba o vilão.

Sim, porque a Literatura é em grande medida a arte da vilania. E a canção é uma espécie de literatura. Então, como será uma literatura sem vilões? Sem o Mal? Só com “boas” intenções? Como é isso? Funciona?

Chico Buarque é machista, dizem. Ele, ou suas letras, ou ambos. Nesta letra, por ex., ele rouba um beijo, o que é, pros valores atuais, assédio, violência, cultura do estupro. Estupro mesmo.

Tudo pré-politicamente correto, inclusive, é um prato cheio pro revisionismo: Pica-Pau é cruel, violento, a Barbie superobjetifica a mulher, a Bela Adormecida dorme eternamente em berço esplêndido à espera do Homem-Príncipe que irá salvá-la de uma existência sem propósito e sem sentido, Tintim é etnocêntrico, os Trapalhões são machistas, racistas, classistas, homofóbicos, a Turma da Mônica é bullying diário respondido com violência, Nabokov: pedófilo!, a própria encarnação do Diabo… E isto há apenas pouquíssimas décadas [atrás], hein. O mundo dos velhos e dos mortos está ruindo. Ou já caiu. Em queda livre. (Imagina quando chegarem no Marquês de Sade… .. .)

Por outro lado, a crítica move o mundo. Ninguém está acima da crítica. Viva a crítica…

Seria o caso, então, de se perguntar e avaliar qual o melhor formato que deve assumir a crítica? Se resultará na queima de livros, quebra de discos, proibição de obras, reescritura de clássicos do passado, censura (tácita ou não) de obras novas, boicote, linchamento online? Ou se resultará na mera publicação de edições críticas e teses de doutorado e avaliações de Blog?

Não sei.

…alguém sabe (?) o que vai acontecer com a literatura e a canção, as artes da vilania, após o filtro forte da Nova Moral?

(…)

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