# 36

PROKOFIEV HENDRIX: os pintores sonoros da Guerra

 

Lembro que a guerra em Música é divinamente retratada por 2 caras do séc. XX: S. Prokofiev (1891-1953) e J. Hendrix (1942-1970).

A diferença entre eles é que Hendrix nos apresenta o som da guerra acontecendo (a guerra dos jovens comandados pelos velhos), enquanto que Prokofiev nos apresenta o som da guerra acontecida (a guerra dos mortos, o silêncio do pós-campo de batalha, isso).

Estou falando especificamente do Hendrix da faixa “Voodoo Child”, hein. A grande obra-prima dele…

É o som da guerra acontecendo agora. Tipo: você do lado do soldado. Som da adrenalina. Arterial. Sangue em ebulição. Cor vermelha.

Embora a letra não tenha nada a ver com o tema da guerra, o som tem. Então, esqueçamos a letra por um momento.

Escuta.

Esta faixa não é lúdica, ou festiva, é como ser um titã violento, uma entidade da passagem entre os vivos e os mortos. E pelo menos a isso a letra faz menção:

“If I don’t meet you no more in this world / I’ll meet in the next one…” [Se eu não t’encontrar mais nesse mundo / T’encontro no próximo…]

A guitarra de Jimi Hendrix soa como fuzis, tanques, metralhadoras e helicópteros rasantes, promovendo a guerra e a conquista em meio às folhas dum país verde, trópicos. É vã guarda, avanço, projétil, correria, adrenalina, sangue, desespero, chacina. Mas a guitarra de Hendrix não faz metáforas, ela isso. Onomatopeia musical. (no jargão técnico: imitações auditivamente reconhecíveis de sons do ambiente por instrumentos musicais…) [Para mais sobre isso, leia aqui]

E a voz de Jimi Hendrix é a voz de um soldado, de um mensage’ro que traz notícias que arrepiam os pêlos da consciência, que anunci’a morte c’uma certa malícia, quase como se zombasse do próprio medo, porque tem medo!, quase como se fosse um vivo que debocha da Morte, enquanto está vivo, que é o máximo que ele pode fazer, o máximo de vingança que ele terá em relação à morte: fazer humor dela, enquanto em vida. E só por enquanto…

Claro que quase nada disso ‘tá na letra da canção, mas apenas no timbre da voz do Hendrix. Lembro bem de um conselho de minha mãe quando eu, no carro aos 3 anos, do banco de trás, meio metido a aristocrata do som já, pedi que mudassem de música no rádio, porque eu não conseguia entender a letra, era John Lennon, ao que minha mãe retrucou qu’eu deveria então prestar atenção ao “timbre” da voz e dos instrumentos. Faça-se como requerido…

(…os adultos não fazem ideia dos grandes impactos que suas pequenas palavras têm nas crianças. Pequenas palavras, grandes negócios… .. .)

Repara como essa banda do Hendrix conseguiu imitar o swing sôlto dele, essa soltura sonora. Esse swing, esse som, esse modo de levar o som, significam ironia, insolência, deboche, sarcasmo…

E o técnico de som fez o som da guitarra migrar entre as caixas, da esquerda pra direita e voltando…, o que torn’a coisa tod’ainda mais realista. Repara.

[Obs.: A internet nos ensina que foram 8 takes pra fazer essa faixa. E a versão que foi pro disco foi a última.]

(…)

Já o 3o movimento da 6a Sonata de Prokofiev traz a representação do campo de batalha pós-guerra. Aquele silêncio. A melancolia do pós-. Ele estetiza o pós-guerra.

A lamentar, só o fato de que seja tão longo e repetitivo! Nisso, a música erudita perde de lavada pra popular: é que ela muitas vezes se perde em desenvolvimentos e reiterações desnecessárias e intermináveis, isso atrapalha o enredo e a expressão, o “sentido”, o dinamismo, a leveza, a síntese, a crônica, o conto. Então, nesse movimento, o tema é da ordem do sublime, primoroso!, mas seu desenvolvimento é um tanto previsível, quase protocolar. (Lembrando que a crítica musical se desenvolve confortavelmente quando falamos de Titãs da música do passado. Nada que falemos vai alterar sua importância, seu legado. Relaxem)

Vê.

Cromatismo. Triadismo. Registro agudo pro tema. Tempo elegante. Articulação cerimoniosa… Ou seja: a valsa da pós-morte.

Mas, neste caso, é apenas uma metáfora. Não são os sons da guerra.

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P.s.: A internet nos conta que como soldado Hendrix foi um excelente músico (veja aqui). E Prokofiev evitou servir na 1a Guerra… .. .

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